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03/03/2010

Relato de parto domiciliar – Aysso 03/01/2010

Meu filho brasileiro



Dia 03 de janeiro de 2010 nasceu Aysso, aqui em nossa casa, em Curitiba-Pr, Rua General Aristides Athayde Jr, Bigorrilho.
O pré-trabalho de parto iniciou-se às 22 horas do dia anterior, enquanto ajudava os irmãos do Aysso a dormirem. Começou com dores muito intensas e com intervalos irregulares de 30, 40 minutos. Ainda não acreditava que um trabalho ia iniciar-se. Achei que era apenas o cansaço do dia.
Cerca de uma da madrugada, quando meu marido veio deitar-se, achei que um franco trabalho de parto se iniciaria. Esperei mais um pouco até a contração seguinte, então decidi me levantar para preparar os últimos detalhes, preparar o ninho seco com lençóis limpos,  separar as toalhas. Coloquei filme em minha máquina de fotografia manual e fui comer. Tive três contrações em 40 minutos, percebi que o movimento fez com que as contrações se aproximassem, mas como estava muito cansada preferi ir dormir - mesmo que deitada, sentisse as contrações mais intensas.
Achei que ao levantar e começar as atividades rotineiras, o trabalho engrenaria e seria rápido. Esperei  que as crianças acordassem, por volta das 8 horas, pra pedir que minha mãe viesse buscar meus filhos. Em uma hora foram quatro contrações, e comecei a achar que ia demorar. Quando as crianças partiram, terminei de arrumar a casa, fizemos mais um molde de gesso da barriga, e tive vontade de caminhar.
Fomos caminhando até o Parque Barigui, eu e o Mario. Conversávamos sobre tudo e sentia que o caminhar e a respiração ajudava a aliviar as dores. Não estávamos contando os intervalos, mas percebi que as contrações se regularizavam. Tomamos um caldo de cana e comecei a me sentir incomodada por estar fora de casa, pois sabia que uma enorme subida me esperava no caminho de volta.
Eu me sentia disposta, mas tinha impressão que as coisas iam demorar. Cheguei a casa com  fome. Comi um sanduíche, fiz um escalda pés, sentindo muita dor no centro da planta do pé esquerdo. Durante o escalda pés as contrações passaram de um intervalo de 10 para 5 minutos.
Achei que era hora de me concentrar, então eu e o Mario fizemos um singelo ritual para esperar a chegada da nossa surpresa, pois não sabíamos ainda se nosso bebê era menino ou menina. Defumamos a sala com um suave perfume, cantamos nossa fé e acendemos a luz da vela.
Depois do ritual achei que as contrações passaram a ser mais espaçadas. Creio que porque entrei em contato com minha ansiedade e tédio. Então decidi caminhar no quintal de casa. Subi e desci varias vezes a rampa. Tomei um chá e as contrações voltaram ao padrão de 5 em 5 minutos. Fui para o ninho e me entreguei. Cansei das dores e decidi entrar na banheira.
Que maravilha! Que alivio! Consegui relaxar e terminei de me entregar, massageava meu corpo se abrindo. Abria-se meu corpo minha alma e meu espírito, enquanto sentia meu quadril deixar passar meu filho, e meu coração se declarava e se elevava. Estávamos ali eu e o Mario, como queríamos, podendo realmente confiar um no outro e desfrutar intensamente dessa graça.
A transição da fase ativa do trabalho de parto para o expulsivo foi muito rápida. Senti vontade de sair da banheira para fazer xixi, e quando voltei, as contrações eram diferentes. Logo comecei a ter vontade de fazer força. Tentava fazê-lo suavemente, respirando profundamente, pois sabia que se o bebê viesse muito rápido poderia me machucar. Continuei massageando meu períneo e preferi ficar em quatro apoios.
A bolsa rompeu e meu corpo queria colocar o bebê para fora, com muita força. Eu respirava calmamente e ouvia no fundo o incentivo do Mario.
Sentia a cabecinha coroando, pegava em seus cabelinhos, e com grande força senti sair sua cabeça. Queria poder recebê-lo, queria ser seu primeiro toque, então mudei de posição e me coloquei sentada. Na contração seguinte, que demorava a vir, nasceu meu bebê e soube antes de olhá-lo que era nosso menino, presente em nossas vidas já há bastante tempo, com a anunciação do Mario.
Assim, nessa certeza nasceu às 16h45min da tarde, nosso formoso e bem feito amor!  

Luciana Lima

Relato de parto domiciliar – Serena 09/02/2008



Minha Serena poesia


Foi o instante harmônico, onde cada nota soava e cada cor vibrava na ressonância perfeita. Minha filha nasceu! Uma poesia, uma linda flor em nossa casa! O amor a única certeza!
Já estava pressentindo a chegada da Serena já há algum tempo, mesmo que ainda houvesse bastante prazo para a data “pouco provável”. Sentia medo e estava insegura com todas as mudanças que viriam a acontecer. Fui buscar o Mario no consultório do nosso médico acunpunturista. O médico aproveitou para me colocar uma agulha bem no meio da cabeça, para que, segundo ele, “eu aceitasse o que viesse a acontecer”. Trabalhei muito essa questão durante a gestação: “lache-prise”, aceitar as coisas como elas são.
Senti que ela estava chegando. Nesse mesmo dia, fui levar o Mario até um castelo, cerca de uma hora de Paris, onde ele daria um curso durante dois dias. Já era tarde da noite e chovia, fiquei insegura de voltar por aquela estrada sozinha com o Rudà, e acabamos passando a noite com o Mario nesse lugar lindo e estranho. Não consegui dormir, pois ficava imaginando o que faria se o bebê decidisse chegar. Não gostaria que ela nascesse naquele ambiente formal. Acordamos cedo, e como estava chovendo, não havia muito o que fazer ali. Achei melhor voltar logo pra casa, pois precisava descansar.
Foi difícil chegar em nosso bairro, pois havia greve de taxistas e todas as entradas da cidade estavam bloqueadas. Passei mais de duas horas dentro do carro, e não via a hora de me deitar.
Quando por fim cheguei em casa, uma surpresa nada agradável. Na véspera, havia deixado a minha chave de casa com a amiga da minha irmã, que passava alguns dias com a gente. o combinado era que se ela saísse, deixasse antes a chave. Não foi isso que aconteceu, e por prudência ela resolveu levar a chave consigo. Fiquei perplexa! Não tinha como encontrá-la e a outra chave estava a quilômetros dali.
Respirei fundo, liguei para uma amiga que morava perto, ela não atendeu. Indignada, fui com o Ruda até um parque fechado para que ele se distraísse e eu pudesse repousar um pouco. Sentia uma forte ardência na região do púbis e um peso muito grande na parte baixa do ventre. Percebi que minha filha tinha encaixado. Aproveitei a chance de estar fora de casa, para comprar uma bola suíça e uma barra de musculação, objetos que poderiam me auxiliar durante o trabalho de parto.
Aproveitei também para comprar algumas coisas pra casa. Eu e o Ruda estávamos exaustos, já eram 16 horas, decidi voltar pra casa para ver se a amiga já tinha voltado. O Rudà adormeceu no carro e eu estava cada vez mais aflita. Ela não estava lá. Resolvi esperar e a aflição aumentava. Permaneci no carro até as 19h, quando consegui falar com uma amiga que morava perto dali. Decidi ir para a sua casa, pois sabia que quando o Rudà acordasse ia estar com fome.
Já era incomodo para eu me movimentar. Na casa de minha amiga, dei janta para o Ruda, banho e já me preparava para dormir, quando a Fernanda me ligou. Ufa! Fiquei super aliviada, o que eu mais queria era ir para minha casa. O caminho parecia longo... Cheguei finalmente às 22h30min. Tomei banho e fui dormir feliz de nada ter acontecido de poder ainda curtir meu bebê em meu ventre.
No dia seguinte era preciso ir buscar o Mario. O castelo em que ele estava era perto de Chartres, uma cidade conhecida por sua linda catedral. Decidimos ir até la para fazer um lanche e rever a catedral.
No interior sagrado daquele velho lugar, eu e o Rudà acendemos uma vela a Nossa Senhora do Pilar, fiz uma linda oração. Tomamos um delicioso café e pegamos o caminho de volta para o nosso lar. Estava aliviada e agradecida por nada ter acontecido nesses últimos conturbados dois dias.
Na manhã seguinte fui à Paris resolver algumas coisas. Deixei o Ruda na escolinha e fui para minhas ocupações. Almocei com a Olivia e tudo parecia normal. No final do dia, pelas 16h, fui até o atelier na Bastilha receber uma mãe para orientá-la o uso do babysling. Aproveitei para escolher uma echarpe pra Serena e também pegar as fraldas biodegradáveis. Estava aflita, pois já havia passado da hora de buscar o Ruda. Fui andando rápido e sentia meu útero contraindo, achei que era o cansaço e porque estava com vontade de fazer xixi.
Quando apanhei o Ruda, me tranqüilizei e consegui relaxar um pouco o ventre, mas no trajeto para casa comecei a perceber que as contrações tinham menos de 5 minutos de intervalo e estavam mais intensas que normalmente. Antes de chegar em casa, passamos na estação para pegar o Mario. Momento raro nos últimos tempos, tê-lo conosco a essa hora.
Chegamos a casa juntos e quando desci do carro senti a tensão na parte baixa do ventre. Mesmo assim achei que fosse apenas cansaço.
Continuei fazendo o que tinha programado: tirei lixo, dobrei as roupas, fiz janta para o Ruda, falei com a Paty no telefone... Percebi que as dores estavam mais intensas. Resolvi então preparar a máquina fotográfica, separar lençóis limpos...
O Mario não acreditava muito, mesmo assim ligou para a Françoise, nossa parteira. Ela tinha acabado de chegar de um parto e precisava esterilizar seus instrumentos, levaria para isso 1 hora. Combinamos que ela me ligaria quando estivesse pronto para saber se já deveria vir.
O Ruda e o Mario estavam brincando e para mim já estava difícil suportar as dores intensas. Pedi que nos concentrássemos, para isso fizemos um lindo ritual, defumamos a casa, ascendemos nossas velas, cantamos, cantamos muito. Foi um momento muito mágico, com muita harmonia entre nós.
Explicamos ao Rudà o que estava acontecendo, e pedi que o Mario colocasse-o na cama, pois sentia que o trabalho de parto se intensificava. Percebi que o Mario se preparava para uma maratona de 16 horas, como tinha sido nossa experiência com o Ruda. Era difícil até para mim imaginar diferente, mas assim mesmo insisti que precisava me concentrar.
Ele foi acompanhar o Ruda, e eu desci e comecei a fazer exercício na bola, rebolava apoiada nela, as dores estavam muito fortes e era difícil ficar em pé. Pedi hesitante que a Françoise viesse. Não conseguia acreditar que minha filha estava chegando. Não me sentia preparada, sentia medo de não conseguir amá-la como amo seu irmão.
O Ruda quis que eu ficasse um pouco com ele antes que adormecesse. Tive três dolorosas contrações deitada em sua cama apertada, a única forma de atravessá-las era respirando profundamente e expirando a dor para que ela me deixasse.
Ele dormiu, desci para entrar na banheira. O Mario andava pra la e pra ca sem ainda acreditar que nossa filha não ia demorar em estar conosco. Minha mãe ligou. Gostaria que ela estivesse conosco, pois precisava que alguém acompanhasse o Rudà nessa mudança. Mas ela estava a mais de 12h dali, do outro lado do Atlântico.
Na banheira consegui relaxar e vocalizar a dor, me sentia uma grande baleia. Aquele som me ajudava muito. Foi difícil me permitir deixar sair o primeiro som, me sentia estranha em fazer aquilo, mas depois de passada a inibição, foi esse som que me acompanhou numa viagem distante, onde palavras não querem dizer nada.
A Françoise chegou. Tudo ia bem, ela verificou os batimentos do coração da Serena, ela estava bem 140 batimentos por minuto.
Senti que ela tinha descido bastante então decidi subir para o quarto com a minha bola. Subi as escadas engatinhando, não conseguia mais ficar em pé. E meus olhos já não viam mais nada, estavam completamente voltados para meu interior. Meu corpo me levava adiante nesse caminho místico que eu jamais conhecera antes. Nesse lugar não existe preocupação, nem caos, tudo é certamente como tem que ser.
Quando sentia uma contração me apoiava na bola para rebolar. A cada espiral que completava sentia meu corpo se abrir ainda mais. Sentia cada parte se abrindo e a Serena cada vez mais perto, e eu indo sempre mais alto.
Rebolei bastante. Sentia muito medo!
Quis mudar de posição, e me aproximei do Mario que ainda estava incrédulo da intensidade do trabalho. Sobre quatro apoios continuava rebolando e permitindo que meu corpo se abrisse, dessa vez sem medo que se rasgasse. Meu medo era na verdade uma culpa de não ter aproveitado a gravidez como gostaria, de não ter conversado o suficiente com a minha barriga, de não ter aproveitado cada movimento do meu bebê em meu interior. Tinha medo que essa culpa segurasse minha filha, que atrapalhasse seu caminho.
Tentava conversar com esse medo e não deixava ele me possuir, tentava fazê-lo ir embora com cada contração.
Percebia a cabeça da Serena bem baixa, parecia que havia apenas uma pele segurando-a. Na contração seguinte a bolsa estourou e senti uma vontade enorme de fazer força. Mais uma contração, senti sua cabeça passar, e na seguinte ela estava lá!
Que maravilha, a Serena nasceu como seu nome. Linda, miúda e firme. Peguei minha filha com coragem e nos tocamos pela primeira vez. Foi mágico!
Fui andando para a cama para poder investigá-la e descansar. Passando pelo seio ela já aproveitou e deu a primeira mamada, ainda com o cordão nos ligando, senti a placenta escorregar.
Ficamos assim grudadas até amanhecer na nossa casa, e eu não consigo achar palavras para descrever meus intensos sentimentos de graça. Foi a experiência mais mística que tive em minha vida!  Demorei muito tempo para voltar à realidade. O que vivi no nascimento de minha filha foi algo que até hoje me emociona e me confunde a mente, e espero que minhas palavras não sejam injustas com a grandeza que foi colocá-la no mundo.
Serena nos transformou em uma família.
Ela nasceu dia 09 de fevereiro de 2008 às 0:45h da manha no numero 30 da rua Léon Blum, Choisy le Roi (banlieu de Paris).

Luciana Lima

Relato de parto domiciliar - Rudà 13/12/2005

Rudà

Foi em uma consulta de rotina ao medico ginecologista, que soube que todo o cansaço e fome que estava sentindo ultimamente podia ser uma gravidez.
Fiquei um pouco confusa com a novidade, pois a partir daquele momento já era uma certeza. Fui logo fazer o exame de sangue. Contei apenas para a minha irmã que já ficou bastante feliz com a possibilidade.
Me sentia sensível. Fui buscar o teste sozinha, um pouco antes de fechar o laboratório. Fui até o carro para abri-lo, hesitei alguns instantes...
Estava escrito “compatível”!? Eu voltei ao laboratório e perguntei para a moça da recepção o que queria dizer “compatível”, ela explicou que queria dizer compatível com gravidez!!! Fiquei eufórica, e já chorava com um grande sorriso no rosto, uma grande confusão no coração. Esperava ler no teste: Parabéns você vai ser mamãe!!! Seja muito feliz!
Liguei imediatamente para o Mário que já estava dormindo na nossa casa em Paris. Não consegui esperar para dar a noticia de uma forma mais bonita. Logo que ouvi a sua voz, já fui dizendo: Você vai ser papai, estou grávida, a culpa não foi minha, estou tão contente... do outro lado um silencio! Acho que ele não entendeu muito bem. Repeti varias vezes entre choros e risos que íamos ser pais! Desliguei pensando que ele iria voltar a dormir e liguei para minha irmã, que estava impaciente a espera da noticia.
Quando anunciei o resultado senti seu coração batendo de alegria. Pedi que guardasse segredo até a hora de eu chegar, pois ia encontrar com as minhas amigas antes.
Eu, a De, a Ju, a Bia, a Ana e a Gel, lá na Casa di Bel, comendo muita besteira, caldo de feijão, frango a passarinho, brigadeiro na panela, eu só no suquinho de fruta acompanhada pela Ju. Tudo normal até a hora que eu perguntei se elas sabiam ler o que dizia o teste. A tal da “compatibilidade” fez muito feliz minhas amigas aquela noite, que desde então torciam por mim e pelo meu filho. E com toda alegria já começavam a surgir varias questões sem resposta. Muita angustia! No meio de nossas fofocas, toca o telefone e ouço minha mãe soluçando do outro lado. Ela me pergunta: é verdade? Eu vou ser avo?? Por que você não me contou? Nesse meio tempo o Mário já tinha anunciado a boa nova para toda a sua família que ligou na casa dos meus pais para dar parabéns. Imagina a cara da minha mãe, recebendo os Parabéns por ser avo, antes mesmo de saber da novidade!?
Me despedi das minhas amigas e fui para casa. Meu pai estava me esperando no portão com um sorriso tão grande, que não lembro de algum dia tê-lo visto. Me abraçou forte. Já me sentia aérea, como se o mundo fosse uma fumaça de vapor em torno de mim, estava super sensível e não conseguia compreender todas as mudanças de uma só vez. Uma felicidade que embriagava a razão com sentimentos se espalhava por todo o ar. Muito carinho, muitas perguntas, muita certeza.
Fui me deitar com todo o cuidado do mundo, como alguém que carrega um cristal muito valioso nas mãos. Nesse dia demorei a dormir, pois era alguém que ganhou um presente tão maravilhoso e que não quer deixa-lo nenhum instante.
Na hora do banho me fechei em mim mesma para sentir e receber essa graça. Nosso primeiro momento de intimidade. Eu e meu filho formávamos um único ser. Sentia-me como a terra que nutre o grão para que ele brote. Era isso! Dai em diante era esse meu papel, cuidar da terra.
Muita coisa achou sua explicação depois dessa noticia. A fome insaciável, o sono constante, os desejos de comer barreado, bacalhau, os mal estares e os enjôos...
No dia seguinte voltei ao medico que me examinou, presumindo uma gravidez de oito semanas. Pediu que eu fizesse uma ecografia.
Momento mágico! O barulho de um pequeno coração que bate como as asas de um beija-flor. Foi uma breve visita que fiz ao nosso filho que crescia no meu ventre e já demonstrava toda saúde e vitalidade.
Já dizia aos outros que era o meu filho, um menino lindo! As pessoas sempre a fazer perguntas que não tinha vontade de responder, pois uma mágica, quando mostramos como ela funciona já não tem graça!
No segundo dia que nosso bebê já estava presente nas nossas vidas, o Mário me mandou um e-mail com uma lista de nomes, de meninos e de meninas, respondi qual eu tinha gostado ao mesmo tempo em que ele, a partir de então nosso filho chamava-se Rudá e todos da família já sabiam a origem e o significado do seu nome. Certeza!
Voltei para Paris com a intenção de dar a luz em Curitiba. Não sabia como funcionavam as coisas em Paris e não sabia muito bem por onde começar, ao contrario, no Brasil já tinha o médico que me acompanhava há bastante tempo e todo o conforto dos familiares. Mas ao regressar, foi conversando com uma amiga, que muito naturalmente, me perguntou se eu sabia que podia parir em casa? Certeza! Me pareceu tão lógico! Já vim dizendo ao Mário que iria dar a luz ao nosso filho em casa. Ele nunca me disse o que pensou de verdade, mas me apoiou desde o início e disse que faríamos o que fosse melhor para mim.
Foi então que a Olivia me mandou uma lista de telefones de sage-femmes (parteiras). Liguei para duas delas, e com a primeira consegui marcar consulta para o mesmo dia, mas ela já não fazia mais partos em casa, então liguei para a Françoise Bardes, que me atendeu e já pudemos conversar um pouco. Marcamos a consulta para dali alguns dias. O Mário foi comigo. Foi bem diferente de uma consulta médica, foi como uma conversa bastante intima, onde ela nos perguntava coisas que nos faziam realmente refletir sobre a nossa decisão. Quando saímos do seu consultório tínhamos de novo mais uma certeza, que seria ela que iria nos acompanhar e nos ajudar a dar a luz ao nosso filho.
A gravidez se passava tranqüilamente. Sentia um movimento enorme em meu interior. Uma ansiedade ao mesmo tempo que uma profunda paz no coração.
Comecei então a organizar a bagunça! Tinha muita coisa na casa que precisávamos arrumar, já que receberíamos nosso filho nesse lugar tão sagrado para nós. Foi uma prova, diria mesmo uma batalha entre o que eu gostaria de fazer e o que dava para fazer. Entre convencer o Mário a fazer e fazer! Nem eu acreditava que podia ser tão organizada.
Troca armário, faz a cozinha, caminha, joga fora muita coisa... A famosa máquina de lavar roupa! Nossos amigos ajudaram bastante, a bricolar, a montar e desmontar armários, a ouvir nossas descobertas!
 A reforma também teve que ser feita também “na minha casa”. Tive que fazer uma faxina nos meus sentimentos, nas minhas memórias de infância, na minha criança. Com a decisão de receber nosso filho na nossa casa, fui à luta da consciência necessária para executar esse projeto. Natação, yoga, terapia, muita leitura. Não gostava muito de falar com as pessoas a respeito da minha decisão e muitas vezes nem de ouvi-las, preferia ouvir o que me dizia meu filho e tudo que sentia dentro de mim parecia mais importante.
Senti-me mais estrangeira do que nunca. Quando contávamos do nosso projeto, os franceses perguntavam se era normal no Brasil, e no Brasil perguntavam se era normal na França. Além de ser vista mais ainda como uma estrangeira, muitas vezes considerada como irresponsável, por não prever os “riscos”. Era um sentimento paradoxal, pois sabia que em casa eu já não corria risco de episiotomia, nem de infecção hospitalar e muito menos de erro médico. Sem contar a falta de respeito que existe com os bebês no momento do nascimento. Injeções, aspirações, exames desnecessários...
Sabia que o meu parto estava se construindo a cada momento da minha gravidez e que se tudo estivesse indo bem, não tinha nenhum motivo para que não desse certo na hora h.
Aprendemos a fazer haptonomia e já com 3 meses sentíamos o bebê mexendo na minha barriga, ficávamos impressionados com a rapidez com  que ele nos respondia. Nossa intimidade foi crescendo, conversava com ele o tempo todo. Foi nessa época também que compramos um pingente de coração que carregava na altura do umbigo e que emitia um agradável som de água correndo. Sempre que saia de casa levava junto com agente esse amuleto. Cantava enquanto tomava banho.
Embora nossa vida estivesse um pouco conturbada por problemas materiais, nunca nos deixamos abater. A partir do sétimo mês de gravidez vivi momentos de mais tensão, com a reforma do atelier de pintura do Mario, que ficou quase um mês parada, nos impedindo de poder organizar a casa. Foi um momento bastante difícil para mim, pois estava muito ansiosa e queria muito ver o rostinho do meu filho, por isso me forçava a acreditar que ele viria antes do tempo previsto. Estresses desnecessários, mas inevitáveis.
Conseguimos fazer as principais arrumações antes da minha mãe chegar. A reforma do atelier ainda parada.
Com a mãe perto, não paramos, todo dia eu inventava alguma coisa para resolver. Aproveitava enormemente cada minuto com a vontade de deixar tudo pronto, pois o bebê poderia chegar a qualquer momento.
De repente me vi com “tudo pronto” e o Ruda’ continuava tranqüilo dando seus chutes na minha barriga. Os dias passaram a ser ainda mais longos. Não sei como minha mãe e o Mário me agüentavam, pois não parava de inventar moda. Eu achava que o bebê nasceria dia primeiro, então deixamos tudo em ordem para esse dia. Chá de fralda, os materiais que a sage-femme ia precisar... Passou dia primeiro sem que nada de diferente acontecesse, então disse que nasceria dia 8. Passou dia 8, passou dia 11, que era a data prevista pela ecografia e nada, nenhum sinal. Só então decidi aproveitar meus últimos momentos de grávida! Acordei com vontade de comer ostras!! Comemos ostras e passamos a tarde no atelier do Mário. Ele estava pintando um quadro comigo grávida, consegui ainda posar alguns instantes, mas estava cansada e com frio. Preferi ficar confortavelmente sentada na poltrona lendo e cochilando. Momento de muita intimidade e conforto.
Fomos dormir depois de alguma cantoria do Mario e da minha mãe.
Na manhã seguinte, acordei cedo com o despertador do Mario que preferiu ficar na cama. Eu fiquei lendo e pensando o que faria durante o dia e decidi que iria comprar uma calça mais confortável para depois que o neném nascesse. Voltei a dormir. O Mario acordou e foi ao banheiro. Acordei e senti um pequeno estouro embaixo da barriga, achei que era a bolsa, mas esperei antes de dizer alguma coisa. Esperei o Mario sair do banheiro, e antes de chegar já sentia a água escorrendo e também a primeira contração. O Mario se preparava para ir trabalhar, quando lhe disse que era para ele ligar para a sage-femme porque a bolsa tinha se rompido. Ele não acreditou muito, perguntou se tinha certeza, então mostrei a água já tendo a segunda contração.
A partir daí, as contrações foram regulares entre 5 minutos.
Acordamos a mãe para levá-la a um hotel. Sabia que a presença dela seria importante depois, mas aquele momento era meu apenas, e ela sabia disso. O Mario a acompanhou. Aproveitei para fazer uma faxina. Passei aspirador, escovei nosso tapete de lá de ovelha e fiz almoço. Nesse meio tempo a sage-femme chegou, trazendo o seu material para medir a freqüência cardíaca do bebê e saber como ele estava suportando as contrações. Eu já tinha 2 centímetros de dilatação e o coração do Rudà batia a 140 por minuto, ele se mexia bastante.
Ela foi embora e nos deixou eu, o Mario e o Rudà. Montamos a banheira e o Mario me ajudou a fazer uns alongamentos e treinamos as posições que me aliviavam um pouco a dor das contrações. Tomei alguns banhos, as contrações foram se intensificando. Às 5 horas da tarde a sage-femme ligou perguntando se ela poderia ir até a casa de outra paciente ou se eu já precisava dela. Eu já sentia muita dor, principalmente nas costas e ficar deitada era insuportável. Então pedi que ela viesse.
Quando ela chegou, utilizamos nossa ultima alternativa para diminuir a dor, que era a banheira armada no meio da sala. Fiquei ali mais ou menos 4 horas, enquanto o Mario fazia crepe de maisena para eles comerem. Eu já não comia mais nada, estava super concentrada nas contrações e conseguia repousar entre uma e outra, o que deixava o Mario um pouco preocupado, pois pensava que eu estava me entregando. Comecei a sentir muita dor e já não quis mais ficar na água. Fomos para o quarto e a Françoise confirmou que já estava com a dilatação completa. Esses momentos foram mais difíceis, pois o bebê estava demorando para descer e todo mundo estava cansado.
Já de madrugada, uma da manhã, a Françoise sugeriu que fossemos para a maternidade, pois o bebê não estava descendo. Eu fiquei furiosa, nunca pensei que pudesse sentir tanta raiva de alguém! Não queria nunca mais vê-la na minha frente, e foi então que eu levantei para tomar mais uma ducha e nesse momento senti que não agüentava mais andar, acho que o fato de ter levantado ajudou o neném a descer. Então chamei o Mario que me ajudou a sair do banheiro e me segurou de cócoras, e me motivou, pedindo que eu soprasse o nosso bebe para ele, que estava tudo bem e que dali a pouco ele estaria ali conosco, que era apenas para eu ser forte mais um pouco.  
As 2:40 da manhã, do dia 13 de dezembro de 2005, no 34, rue de Lappe 75011 em Paris, vimos pela primeira vez o maior presente da nossa vida. Nosso filho amado, que sem muito alarido, cuspiu fora a água do seus pulmões, nos olhou com seus grandes olhos negros, enquanto que o Mario o pegou e o colocou sobre o meu ventre ainda cansado, para que ele sentisse o calor e a segurança do nosso amor. Ele ainda era todo molinho, como uma gelatina. O Mario cortou o cordão, guardamos a placenta para plantá-la sob uma arvore. O Rudà já procurava a teta como um bezerrinho.
Rudà nos transformou em pais!


Luciana Lima

Parto em casa é seguro

Dra. Melania Amorim


Li com atenção a interessante matéria do Guia do Bebê sobre Parto em Casa. Efetivamente, a recente notícia de que o parto da modelo Gisele Bundchen foi assistido nos Estados Unidos em sua própria residência, dentro da banheira, teve grande repercussão na mídia e despertou grande interesse em diversas mulheres, além de debate por diversas categorias profissionais.
Entretanto, mesmo bem preparada, a matéria peca por apresentar apenas o ponto de vista de uma única obstetra, sem considerar a visão de diversos outros profissionais que podem participar da assistência ao parto e, sobretudo, sem analisar a opinião das mulheres.
Como obstetra, pesquisadora e integrante do Movimento de Humanização do Parto no Brasil, não poderia deixar de contrapor a este ponto de vista, digamos, “oficial”, por refletir a opinião de grande parte dos médicos-obstetras em nosso País, considerações baseadas não em “achismos” ou receios, mas em evidências científicas.
O parto em casa, conquanto seja uma modalidade ainda pouco freqüente no Brasil, representa uma realidade dentro do modelo obstétrico de diversos outros países, como a Holanda, onde 40% dos partos são assistidos em domicílio, dentro do Sistema de Saúde. Mas vários outros países europeus e até os EUA contam com estatísticas confiáveis pertinentes aos partos atendidos em casa, e é impossível falar em RISCOS ou SEGURANÇA sem considerar os resultados dos diversos estudos já publicados sobre o tema.
Em 2005, chamou a atenção a publicação de um interessante estudo analisando os desfechos de partos domiciliares assistidos por parteiras na América do Norte: "Outcomes of planned home births with certified professional midwives: large prospective study in North America"[http://bmj.bmjjournals.com/cgi/content/full/330/7505/1416?ehom]. O estudo incluiu 5418 mulheres. A taxa de transferência para hospital foi de 12%, com uma taxa de cesariana de 8, 3% em primíparas e 1,6% em multíparas.
A frequência de intervenções foi muito baixa, correspondendo a 4,7% de analgesia peridural, 2,1% de episiotomias, 1% de fórceps, 0,6% de vácuo-extrações e uma taxa global de 3,7% de cesarianas. A taxa de mortalidade perinatal (intraparto e neonatal) foi de 1,7 por 1.000, semelhante à observada em partos de baixo risco atendidos em ambiente hospitalar. Não houve mortes maternas. O grau de satisfação foi elevado (97% das mães avaliadas se declararam muito satisfeitas). A conclusão deste estudo foi que os partos domiciliares assistidos por parteiras têm os mesmos resultados perinatais que os partos hosp italares de baixo risco, com uma frequência bem mais baixa de intervenções médicas. Entretanto, alguns críticos comentaram que o número de casos envolvidos seria insuficiente para determinar a segurança do parto domiciliar em termos de mortalidade materna e perinatal.
Seguiram-se vários outros estudos, publicados em diversas regiões do mundo, comparando a morbidade e a mortalidade tanto materna como perinatal entre partos domiciliares e hospitalares. A conclusão geral é que o parto domiciliar NÃO envolve mais riscos para mães e seus bebês, e cursa com vantagens diversas, relacionadas sobretudo à expressiva redução de intervenções e procedimentos. Partos assistidos em casa têm menor risco de episiotomia, de analgesia de parto, de uso de fórceps ou vácuo-extrator, de indicação de cesárea e a taxa de transferência hospitalar fica em torno de 12%. Destaca-se ainda o conforto e a satisfação das usuárias, que vivenciam uma experiência única e transformadora em seu próprio lar.
O estudo mais recente publicado no British Journal of Obstetrics and Gynecology (2009) analisou a morbimortalidade perinatal em uma impressionante coorte de 529.688 partos domiciliares ou hospitalares planejados em gestantes de baixo-risco: Perinatal mortality and morbidity in a nationwide cohort of 529,688 low-risk planned home and hospital births. [http://www3.interscience.wiley.com/journal/122323202/abstract?CRETRY=1&SRETRY=0]. Nesse estudo, mais de 300.000 mulheres planejaram dar à luz em casa enquanto pouco mais de 160.000 tinham a intenção de dar à luz em hospital. Não houve diferenças significativas entre partos domiciliares e hospitalares planejados em relação ao risco de morte intrapa rto (0,69% VS. 1,37%), morte neonatal precoce (0,78% vs. 1,27% e admissão em unidade de cuidados intensivos (0,86% VS. 1,16%). O estudo conclui que um parto domiciliar planejado não aumenta os riscos de mortalidade perinatal e morbidade perinatal grave entre mulheres de baixo-risco, dese que o sistema de saúde facilite esta opção através da disponibilidade de parteiras treinadas e um bom sistema de referência e transporte.
Parteiras treinadas ou midwives, em diversos países, são aquelas profissionais que cursam em nível superior o curso de Obstetrícia e são treinadas para atender partos de baixo-risco e, ao mesmo tempo, desenvolvem habilidades específicas para identificar os casos de alto-risco, providenciar suporte básico de vida em emergências, tratar potenciais complicações e referenciar ao hospital, quando necessário. Essas profissionais, como a que atendeu Gisele Bundchen, estão aptas para prestar o atendimento à mãe durante todo o parto, bem como para assistir o bebê imediatamente após o nascimento e nas primeiras 24 horas de vida. Embora não haja necessidade de equipamentos sofisticados ou de UTI à porta da casa da parturiente, o material básico de reanimação neonatal é providenciado pelas parteiras certificadas. Parteiras também podem atender em hospital, de forma independente ou associadas co m médicos.
Uma revisão sistemática recente encontra-se disponível na Biblioteca Cochrane com o título de “Midwife-led versus other models of care for childbearing women” [http://www.cochrane.org/reviews/en/ab004667.html]. Esta revisão demonstra que um modelo de cuidado com parteiras associa-se com vários benefícios para mães e bebês, sem efeitos adversos identificáveis. Os principais benefícios são redução de analgesia de parto, menor número de episiotomias e partos instrumentais, maior chance de a mulher ser atendida durante o parto por uma parteira já conhecida, maior sensação de manter o controle durante o trabalho de parto, maior chance de ter um parto vaginal espontâneo e de iniciar o aleitamento materno. A revisão conclui que se deveria oferecer à maioria das mulheres (gestantes de baixo-risco) a opção de ter gravidez e parto assistidos por parteiras.
Em resumo, as evidências científicas disponíveis corroboram a segurança e os efeitos benéficos do parto domiciliar. Apenas criticar e apontar possíveis complicações, sem comprovar as críticas com evidências bem documentadas, publicadas em revistas de forte impacto, não pode ser mais aceito em um momento da história em que os cuidados de saúde devem se respaldar não apenas na opinião do profissional mas, ao contrário, devem se embasar em evidências científicas sólidas. Este é o preceito básico do que se convencionou chamar de “Saúde Baseada em Evidências”, correspondendo à integração da experiência clínica individual com as melhores evidências correntemente disponíveis e com as características e expectativas dos pacientes”. Embora iniciado na Medicina (“Medicina Baseada em Evidências”) esse novo paradigma estende-se a todas as áreas e sub-áreas da Saúde.
Esta página foi publicada em: 03/03/2010.