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25/02/2013

PORTAL DOS GIRASSÓIS


Chegou o grande dia!

Sete anos vivendo sob toda a atenção do meu olhar, num ambiente familiar, em seu próprio ritmo... hoje tive a sensação de entregar meu filho pela primeira vez. Entregando-o à professora, a uma nova comunidade, mas principalmente ao seu próprio pensar!
Rudà recebendo de sua professora Laura a coroa e seu girassol
 
Toda a família vinha se preparando para este grande dia, há um ano. Ele se tornou um menino rei, para os colegas e para os irmãos. Passou a realizar tarefas que somente com este posto importante eram possíveis.

Suas mãozinhas começaram a despertar e transformar fio em corda, corda em brinquedo, trabalho em sucesso! Seu sorriso depois de grandes janelas mostraram a harmonia e seu equilíbrio através dos brancos dentões que acompanharão seu sorriso por toda sua vida.

Fomos todos juntos, passo a passo, um de cada vez. Atentos ao seu ritmo e as suas necessidades.

Era uma criança que dizia não querer ir à escola, mas quando entendeu o sentido do desafio, soube enfrentar corajosamente suas tarefas.  Nós vibrávamos, valorizávamos cada realização, pois não era fácil para ele, era desafiador! Um caminho que ele não sabia onde daria, mas ele confiava em nós e em sua professora.

O ano foi se completando e percebemos que era com entusiasmo e curiosidade que ele perguntava agora sobre a escola, sobre o primeiro ano. Quando soube que seria apresentado às letras, vi a euforia no seu sorriso.

Então seguimos o caminho que nos levaria a essa grande passagem. Além de todo o trabalho pedagógico feito com a professora durante o ano, fomos celebrando cada etapa. Iniciamos esse importante rito em seu sétimo aniversario. Seus presentes foram símbolos de habilidades ou recursos que ele poderia adquirir para estar mais preparado. Coisas simples e cheias de significado.

Tomamos a decisão de esperar que começasse a vida escolar com sete anos completos. Não sabíamos muito bem o quão melhor seria, mas como recompensa pudemos ver a consistência deste sétimo ano chegar, com tantas diferenças sutis e importantes.

Houve o passeio do barquinho. As crianças colocaram na àgua um barco que elas próprias confeccionaram. O lindo ritual de entrega da criança pela professora do jardim à professora de classe. Uma entrega de confiança e a continuidade de um trabalho tão singular e duradouro. Nós pais, contemplamos este entrosamento que se construiu ao longo dos últimos seis meses.

Enfim, atravessamos hoje o portal dos girassóis. Não sem lágrimas como já era previsto! Quanta delicadeza e intensidade desse novo nascer!

– O primeiro dia do primeiro ano! Como disse ele, ontem, enquanto nos preparávamos.
Chegamos com sua enorme mochila, carregada do lanche que preparamos juntos, a capa de sua flauta, trabalho que ele fez ao longo do ano no jardim, e uns segredinhos que só percebi mais tarde...
Foi lindo ver cada um dos amiguinhos orgulhosos com suas merendeiras e mochilas e surpresas. Eles sabiam que carregavam coisas muito importantes, tanta esperança, tanto caminho.
Eu estava tocada, sensível ao ambiente, ao momento e às lembranças. Um filme de sete anos passou diante de mim. Lembrei a primeira vez que peguei meu pequeno no colo e cada momento de cumplicidade que vivemos até aqui. Agora fica a impressão de ter soltado mais as rédeas. Sei que ele irá cada vez mais longe, entregue a si próprio, aos seus próprios pensamentos. Nossos encontros serão mais amistosos e de muita prosa. A mim resta confiar em seu destino e em todas as oportunidades que o mundo lhe trará.
Um primeiro dia de um primeiro ano, de muitos dias e de muitos anos de aprendizagem. Que o entusiasmo permaneça por todo esse caminho. Tenho certeza que não foi em vão toda intensidade e dedicação que empenhamos neste ano. Não houve hesitação, só vi determinação, segurança e vontade nos passos que ele deu até o inicio deste novo ciclo, até a porta se fechar entre nós dois, para depois o ver voltar ainda mais fascinado.
Que siga meu menino, guiado pelo sol, abençoado por todos que vieram antes dele. Obrigada meu filho, por honrar a vida de cada um de nós, através de seu encantador sorriso alegre, saudável e generoso. 

28/12/2011

A Ávore, um jardim Waldorf no meio da floresta do Rio de Janeiro

Neste dia 23 de Dezembro pela manhã, nós do Coletivo “A Arvore Jardim de Infância & Escola de Pais” fizemos uma cerimônia simbólica no terreno onde será nossa escola.
 
Mario Lima Abraça um Jequitibá de mais de 100 anos... Sumaré
 
O terreno fica no morro do Sumaré, pertinho de Santa Teresa, do Estácio, da Zona Sul do Rio e tem uma mata belíssima. Queremos proporcionar às crianças mais espaço integrado à natureza.
Plantamos quatro arvores frutíferas. Goiabeira, Jabuticabeira, Araçázeiro e Tangerineira. Elas foram escolhidas por terem feito parte das nossas infâncias.
“A Arvore Jardim de Infância & Escola de Pais” nasceu a partir do encontro de pessoas comprometidas com a sustentabilidade e que desejam oferecer um tipo de educação engajada no processo de formação da família até os anos escolares da criança, estamos criando uma organização cujo projeto inicial é a fundação de um Jardim Waldorf aliado a um trabalho social comunitário de base antroposófica.

Integração das mães desde cedo
Com base na experiência do espaço Aobä em Curitiba, a proposta é permitir que as famílias já possam ter contato com a escola desde a gestação e/ou nos primeiros anos da criança. Através de uma série de oficinas, desejamos que este trabalho promova um espaço de produção e troca de experiências entre mães, sobre os principais temas do desenvolvimento da nova família, trazendo abertura para os valores que honramos nesta pedagogia. A intenção é de que as mães se sintam apoiadas e integradas ao ambiente escolar, garantindo que os valores da escola e de casa estejam em harmonia. Em complemento a esse trabalho, gostaríamos de oferecer uma turma de berçário.
Integração social
É previsto um trabalho que garanta integração social, ou seja, um sistema que permita que famílias de comunidades próximas tenham a possibilidade de um espaço na escola e possam  participar de oficinas de trabalhos manuais;
Nossa cerimônia contou com a presença de pessoas queridas e apoiadoras do nosso projeto. Somos imensamente agradecidos por tudo que temos recebido.

Nossa escola começará o ano letivo de 2012 provisoriamente no Grajaú, até que nossa sede fique pronta no morro do Sumaré.
O Coletivo “A Arvore Jardim de Infância & Escola de Pais” é formado por: Luciana e Mario Henrique Lima, Ana Luiza Britto, Ana Carina Cohen, Pablo Mandelbaum, Sabrina Frizzo, Thalita Vaz, Miza Carvalho,
Quer saber mais sobre nosso projeto, envie um e-mail para aarvorejardimdeinfancia@gmail.com
Segue um poema que nos dá inspiração:
Não estás de Deus mais perto do que nós;
somos todos longe d´Ele.
Mas admiráveis são as tuas
mãos benditas,
Em mulher alguma elas despontam
assim esplendorosas das mangas do vestido.
Eu sou o dia, eu sou o orvalho,
tu porém és a Árvore.
Sinto-me cansado, foi  longo meu caminho;
perdoa-me, esquecia
que o Grande, em adornos de ouro
sentado como no sol,
te mandou saudar, a ti a cismadora,
(o espaço perturbou-me).
Olha: eu sou o que começa,
tu porém és a Árvore.
Desfraldo as minhas largas asas
e fico estranhamente vasto;
agora tua pequena casa já transborda
de meu grande vestido.
No entanto és tão só
como nunca e mal dás por mim;
porque eu sou hálito no bosque,
tu porém és a Árvore.
Os anjos todos se inquietam,
desprendem-se uns dos outros:
nunca foi a saudade assim
tão grande e tão incerta.
Talvez porque suceda em breve qualquer coisa
que em sonho compreendas.
Bendita sejas, a minha alma vê:
és pronta e amadureces.
És qual portão alto e imenso
e em breve te abrirás.
Em ti, dileto ouvido do meu canto,
eu sinto: minhas palavras perdem-se
em ti, como num bosque.
Assim cheguei e completei
em ti mil e um sonhos.
Deus fitou-me: deslumbrava-me…
Tu porém és a Árvore
Anunciação – Palavras do Anjo
Rainer Maria Rilke
 

11/07/2011

“A vida não é só feita de festivais”

Eu me emocionei na sala de embarque ao ouvir esta frase de Geraldo Vandré ao final do festival dos festivais de 1967, quando a sua música “para não dizer que não falei das flores” ficou em segundo lugar, perdendo para a canção Sabiá de Tom e Chico. Fiquei sensível as suas palavras, talvez porque, naquele momento, no aeroporto, estivesse sentindo muita dor no lado esquerdo do meu quadril. Do fundo da minha dor, penso que entendi o que ele queria dizer com “A vida não é só feita de festivais”.

Relutei um pouco em escrever sobre isso, pois pensei: que baixo astral falar de dor! Mas finalmente me convenci que tem que ter alguma sabedoria nisso tudo. As conquistas que tenho obtido na vida são precedidas de momentos de dedicação, de concentração e de dor. Creio que várias pessoas tem a mesma experiência.  Apesar disso, passamos as nossas crianças a impressão que as conquistas se dão de forma muito fácil, sem grande dedicação e com pouco suor.  De certa forma, a gente se esquece disso rápido e não celebra, e não reconhece o esforço. E o que aparece são apenas as conquistas e um sorrisão na cara. Você, aliás, se exige aparecer  sempre sorrindo e sempre legal na foto!

Só que a dor do parto, a dor do crescimento, a dor da morte ... acompanham as histórias de todos os homens desde sempre. A dor é uma forma de grito, de expressão, e é porque a gente não fala dela que ela acaba falando mais alto.

Jacó foi aquele cara da Bíblia que saiu ferido no quadril após lutar com o anjo. Depois da briga, ele mudou de nome e passou a se chamar Israel que quer dizer “aquele que lutou com Deus” e segundo o anjo, saiu vencedor. Esta pequena história ilustra que, para todos, chega uma hora que é preciso lutar com Deus! Ou melhor, lutar contra tudo o que é mais sagrado dentro de nós. Confrontar os nossas crenças e verdades mais arraigadas e admitir que o que conseguimos admitir como real, é apenas uma foto bem pequena do imenso filme da nossa vida.

“A vida é imensa” diz o imigrante no filme “A lenda do pianista sobre o mar”. É mesmo imensa a vida, e é melhor nem tentar compreendê-la, pois ela, como uma obra de arte, só vai fazer sentido no fim. Em vez de tentar pensar a vida, creio que é mais avisado estar atento as dores, aos nossos anjos que nos anunciam novidades a nosso respeito. Lamento dizer, mas neste caso, um dorflex é a melhor forma de cortar a comunicação com o anjo.

Durante anos ouvi da minha mãe a seguinte frase: “Deus colocou o prazer tão perto da dor, que às vezes choramos de alegria”. E No pequeno e fundamental livro “O arco e a flecha” Annick de  Suzenelle relata o seguinte: 
“Em sua vocação primeira o Homem é criador do universo, o qual atualmente em situação de exílio de si mesmo, ele ignora o infinito potencial; ele ignora a realidade escondida sob uma casca aparente e aparentemente inerte do real imediato; ele nem desconfia que o campo de batalha onde é chamado a realizar a conquista de si mesmo, é também aquele onde se aplicará toda a paleta do real. Um universo louco que só o artista pressente, cujo mistério ele experimenta, mas que todo ser pode penetrar, se ele ousa o eros, se seu canto de guerra é o amor!”

Patologia, doença em grego, quer dizer ”falsa ideia”, uma percepção errada da realizada. A cura vem, portanto, da mudança desta percepção com beleza, com graça, com amor. Para isto, basta olhar para dentro com os olhos da criança, relaxar e brincar um pouco todo dia, e como um artista, se deixar apaixonar pela beleza de cada evento, e aprender a rir de cada defeito, por mais doloroso que pareça a principio.
Assim a dor passa e a gente enxerga uma nova realidade. O amor tudo cura!


Autor: Mario Lima

Recomendo também de Annick de Souzenelle os excelentes “O Simbolismo do corpo humano” e  “O Feminino do ser”.

21/06/2011

Deixa que eu chore minha sorte cruel e que suspire a liberdade


Estou num vôo entre o Rio e Curitiba e mais a frente, na segunda fileira, tem uma criança que chora e uma mãe que, visivelmente incomodada, tenta com vários argumentos mostrar como é feio aquele choro e quanto ele incomoda os outros passageiros.

Não tenho como não me recordar de como foi tratado meu choro e de pensar como tenho tratado o choro das minhas crianças.

lascia ch’io pianga
mia cruda sorte,
e che sospiri la liberta!


“Deixa que eu chore minha sorte cruel e que suspire a liberdade!” são os versos da aria de Haendel em que o choro aparece como maior expressão da liberdade humana.


Estou bastante convencido que nos libertamos através da expressão de nossos sentimentos. Através do choro, purifico as emoções que acumulo ao longo das diferentes experiências do dia a dia resultando em real aprendizado. De certa forma, quando choro, aprendo.


Mas então porque insistimos em anular esta condição fisiológica fundamental e exigimos que nós mesmos e as nossas crianças engulam o choro?

Acostumamos a pensar que homem não chora, e que choro é coisa de fraco. É incrível como esta forma de ver pode até marcar uma civilização inteira. Já há bem mais de um século, no poema épico de Gonçalves Dias,  I Juca Pirama, “aquele que deve morrer”, o herói  chora para evitar o sacrifício e poder voltar e cuidar de seu pai. Mais tarde, o pai recrimina este ato de desonra e só sossega quando o filho prova que é suficientemente violento para valer a pena ser sacrificado. Quanta violência tem sido causada porque apenas não conseguimos entrar em contato com nossos sentimentos!

Quando pequeno, eu apanhei de cinta. E nestes momentos, recordo-me de que eu me dizia que não ia chorar. E fazia muita força, pois pra mim era uma forma de resistir contra toda aquela falta de diálogo. Deu certo. Fiquei tão endurecido que não tinha problema para bater em todos os meninos da minha idade nas brigas de rua.  Hoje percebo que, na casa dos meus pais, falávamos um monte, mas conversávamos muito pouco. Faltava silêncio entre nós para percebermos e acolhermos com sensibilidade as nossas emoções. Assim, foi só bem mais tarde que notei que era necessário que eu aprendesse a chorar.  Talvez, toda a bronquite asmática da minha infância pudesse ter sido evitada se meu choro tivesse espaço, e se meus pais se permitissem chorar também.

Laura Gutman no seu livro “A maternidade ao encontro da própria sombra” relata o seguinte : “As doenças respiratórias tem a ver com as pequenas crises cotidianas ...As mães tem uma infinidade de motivos para chorar, por isso os bebês choram muito e se resfriam com frequência. O resfriado tem a ver com o choro e com o excesso de água que precisamos expulsar. As vezes não nos permitimos chorar, nem permitimos que os pequenos chorem. O plexo da emoção esta localizado na altura do peito. Sentimos a angustia justamente ali.”

Quando tem emoção na história, não tem certo ou errado. Se o choro vem é porque tem que sair, é um fluxo vital, é como um rio que precisa desaguar para cumprir seu curso. Na verdade quando o choro aparece, basta apenas estarmos presentes, de preferência em silêncio, e acolher o choro, tanto o nosso como o do outro. Nenhuma explicação é necessária. Nada do que for dito nesta hora vai ajudar muito, e no caso de uma criança ainda menos. É mais importante pegar no colo e esperar passar. Ai quando tiver passado vai dar pra conversar e construir algo baseado no respeito aos sentimentos.

Não tem nada de mais verdadeiro sobre uma pessoa do que aquilo que ela sente. E ninguém tem o direito de dizer que o que o outro sente está errado ou que não é importante. Nem tampouco de valorizar excessivamente o que o outro está sentindo. Basta apenas respeitar e permitir que o outro chore o choro que precisa chorar. Homens livres são aqueles que reconhecem suas necessidades e expressam seus sentimentos. Criar uma criança livre é respeitá-la de forma que isso aconteça, se permitindo chorar também, se necessário for.

São quase oito da noite, sigo no avião. A criança está cansada e muito irritada por ter que ficar presa ao sinto, longe da mãe. Finalmente aterrissamos. A mãe a pega no colo, e em silêncio, o choro passa.


Autor: Mario Lima

02/06/2011

O mundo que sonhamos

Semana passada estive no CICI (conferência de cidades inovadoras) em Curitiba, pois trabalho e tenho interesse no tema de como as cidades vão superar seus desafios com foco na sustentabilidade. Esperando a fala de abertura do Jaime Lerner, auditório lotado, eu conversava com um colega, quando uma imagem me chamou a atenção. A mais terna de todas as imagens: uma mãe levando consigo seu filho.
Um bebê de poucas semanas tinha o prazer de estar junto do corpo e da respiração da sua mãe que o carregava com um wrap sling. Não pude deixar de me aproximar e meio timidamente perguntei : é da Aobä?

Anos atrás, quando a Lu e eu, na cozinha da nossa casa em Paris, começamos a pensar em voltar para o Brasil decidimos que não voltaríamos apenas, mas sim que iríamos para o Brasil para realizar um projeto cujo valor central seria o de mais harmonia e beleza na relação entre pais e filhos. Percebemos logo que o Wrap Sling (echarpe em francês) seria o produto central deste trabalho, pois é uma solução que integra tudo o que queríamos passar.  Como a Lu sempre diz, toda civilização ao longo da história da humanidade teve seu carregador para que as mães não deixassem de ter seus filhos próximos do seu corpo. E quanto mais intenso foi este contato, mais pacifica e criativa era aquela civilização.

Assim me recordo que na época brincávamos de sonhar com o dia em que veríamos as mães (e pais) andando juntinho com seus bebês, nas ruas, no trabalho, em casa, num abraço proporcionado pelos nossos wraps. Eu vibrava com esse sonho, pois percebia os inegáveis benefícios que este contato afetivo fazia ao Rudá e à Serena, que então tinha apenas alguns meses.

A moça da palestra se voltou delicadamente e com um sorriso me respondeu: é sim, é da Aobä. Você conhece? 
Este fogo de alegria que mora dentro da gente se acendeu no momento, e me senti como o sol de manhã. Dá pra imaginar o tamanho do meu sorriso. Depois de alguns anos, já não era mais sonho, e era melhor que o sonho.

Eu via uma mulher, podendo participar de uma conferência internacional sem ter que sofrer para deixar seu filho com outra pessoa ou em uma instituição. Eu via uma mãe que podia responder às necessidades do seu filho sem ter que deixar de participar de algo importante para ela, garantindo sua total autonomia. Fascinante podermos proporcionar esta alternativa às famílias que trazem dentro de si a vontade de estarem com seus filhos.

Mais tarde, na sua palestra, o Jaime Lerner resumiria que uma cidade, ou a vida, precisa ter um sonho e que você precisa acreditar nele. Segundo ele, com o tempo você esquece do sonho, mas ele não esquece de você, e dá uma volta e te encontra mais tarde, e diz: Oi! Lembra de mim? Eu sou o teu sonho! E é neste exato momento que você tem a oportunidade de não deixar de viver sem ele.

Ao ouvir isso, eu apenas sorri, e olhei para a mãe que, a alguns metros de onde eu estava, assistia a palestra e doce e discretamente amamentava seu bebê.

Autor: Mario Lima

23/04/2011

No parquinho não tem tempo, não tem ordem.

Agora, a Serena com três anos começa a contar e logo vai contar os dias até eu voltar pra casa da minha viagem. Aí, neste momento insólito sei que para ela vai começar a ilusão de que o tempo linear existe. Ilusão que até o mais sério e sóbrio dos homens dos nossos dias acredita firmemente. Ilusão em meio a tantas das quais é tão difícil se liberar.
Seria bem mais fácil se aprendêssemos a não contar as horas, e uma brincadeira apenas continuasse como no parque de diversão até que outra experiência começasse. No parquinho não tem tempo, não tem ordem, não tem fila, sobretudo. Me deixa tão triste ver a mãe de um menino de dois anos tentando convencê-lo permanecer “bonitinho” na fila atrás de outro menino e esperar “bonitinho” pela sua vez para descer no escorregador. Ou, categórica, falar pra ele do sentido certo de subir as escadas para descer pela rampa de metal. Nos olhos do menino, o sentido é aquele em que a brincadeira continua divertida e não para, a não ser quando se cansa. Até mesmo um choro não é o fim, pois pode logo se transformar em outra coisa, numa nova risada, talvez. Aí, areia nos olhos não é agressão. Assim como o mundo também não é perigoso, a não ser na cabeça do adulto. E talvez seja melhor desligar um pouco a cabeça e olhar de novo, com novos olhos, com os olhos da sua criança que deseja apenas aprender a realidade simplesmente.


Nesse mesmo parque vi outra mãe assombrando pela enésima vez seu filho pra que ele não tirasse os sapatos. A areia é gostosa no pé, mas a mãe não entende assim. Seu medo lhe impende de sentir com a pele, e para ela só existem micróbios e cacos de vidro no lugar de gargalhadas de crianças felizes. Ela diz para o seu filho, certa de que faz bem: “se entrar um caquinho ou pedrinha em seu pé, não vai sair mais! e aí eu quero ver...” talvez não perceba quanto as palavras de uma mãe podem desenhar a realidade na cabeça dos filhos, para o bem ou para o mal.

Chego do parquinho assustado. Meus filhos brincam com o pé no chão e voltam pra casa todos sujos e cheirando o suor ensolarado de uma brincadeira sadia. Caem e não se machucam, choram dois segundos e levantam e tentam de novo; disputam o mesmo brinquedo e logo se entendem do jeito deles; acham pela menos uma meia dúzia de maneiras de brincar com o mesmo brinquedão (nem me esforçando tiraria tanta satisfação de tão pouco). Eles sentem um prazer tangível com a liberdade dos seus sentidos, de testar o limite da sua musculatura, e de chorar toda a sua frustração por não conseguir e, depois de ralar várias vezes o joelho para subir uma pedra, declararem com uma satisfação pulmonar: “olha pai, olha o que eu consigo”.
Só posso agradecer por estas crianças sem hesitação. Que se jogam em meus braços com tanto vigor que estremecem em mim qualquer crença absurda de que nascemos com medo, e que para proteger é preciso assustar atrapalhando o desabrochar do que é por natureza livre.

Que mal tem em ser livre?
Pense bem antes de proibir o seu filho de brincar (do jeito dele). Que mal tem em ser livre?
Antes de contar alguma história assustadora para que ele fique grudado em você, lembre-se que essa pessoa não te pertence, e para que teu filho cresça do tamanho que ele é de verdade, deve continuar confiando no ambiente em que vive. Apesar dos teus medos, ele tem direito de experimentar e tirar suas próprias conclusões. Não é se privando da vida que se evita a morte. Se você não quer que as roupas e os joelhos se gastem, e prefere assistir a vida por uma tela Led, tenha ao menos a coragem de assustar alguém do teu tamanho, e a dignidade de pedir desculpas para tentar fazer diferente.
Com um sorriso, o teu filho vai saber perdoar brincando. Ele vai até gostar.

Autor: Mario Lima

06/09/2009

Cama compartilhada: uma escolha familiar


Antes de o meu filho nascer, meu passatempo predileto era arrumar seu quarto, preparar o berço (que ele ganhou da avó), ansiosa para vê-lo ali, dormindo como um anjo, só para admirá-lo, acarinhá-lo... Quando ele nasceu, porém, olhei para aquele bebezinho tão frágil e indefeso e percebi que o queria bem pertinho do meu peito, sentindo sua respiração, dando-lhe calor e oferecendo-lhe aconchego pelo tempo que precisasse. E esse tempo era só nosso, só nós o conhecíamos.
Nos primeiros dias, todos achavam normal que ele dormisse ao lado da cama, mas faziam questão de deixar seus “maravilhosos” conselhos sobre a necessidade de a criança aprender a dormir sozinha, no seu próprio quarto, e que não fosse atendida quando acordasse aos berros, para “perceber bem cedo que precisa ser independente”. Eu me perguntava: “Como um ser deste tamanho pode se virar sozinho?” e a resposta era sempre a mesma: “Ele não pode, não por enquanto. Por isso tem mãe”. Os meses se passaram e a pressão por parte dos familiares, amigos e médicos (o GO e a pediatra) era cada vez maior. Conversei com meu marido e decidimos que, aos oito meses, ele estava pronto para dormir no próprio quarto. Foram noites difíceis e dias de mal-estar e sonolência. Eu e meu marido nos alternávamos nos cuidados durante a madrugada e, por inúmeras vezes, dormi sentada na cama, amamentando.
Até que um dia, estava tão cansada que já não podia ficar ali, sentada; novamente dormi amamentando, mas dessa vez, recostada num travesseiro, muito mais confortável. Meu marido também dormiu a noite toda, não precisou levantar assustado para buscar nosso filho em outro quarto. Estava decidido: em nome do nosso conforto (e arrisco dizer, saúde também) ele passou a dormir na cama, onde podia ser atendido prontamente, sem que saíssemos do nosso ninho. As noites ficaram mais calmas e os dias, cheios de disposição. Estávamos satisfeitos com o novo arranjo, que só trouxe mais afeto e cumplicidade à nossa família...
Claro que as críticas eram inúmeras e nos rondavam como fantasmas, deixando-nos muito confusos. Será que por conta da cama compartilhada nosso filho se tornaria inseguro? O fato de dormirmos juntos traria algum risco físico ou emocional? E nós, como casal, não teríamos nossos momentos de intimidade? Pesquisei muito, li todo tipo de teorias, pedi conselhos... Meu marido também fazia suas pesquisas, conversava com os amigos e ouvia as maiores barbaridades. Mas, em meio a tantas informações, filtramos aquilo que funcionava (e ainda funciona) para nossa família. Eis o que restou:
- Crianças são interdependentes. Reconhecer isso é valorizar a pessoa que colocamos no mundo, respeitar suas necessidades e limitações e ajudá-la a construir de forma saudável sua individualidade.
- Cama compartilhada ajuda a estabilizar o sono do bebê, regular os períodos de mamada e manter bons níveis de ocitocina e prolactina na mãe, favorecendo a amamentação.
- Pode ser muito benéfica também por facilitar alguns aspectos, como: proteção, monitoramento, fácil acesso à alimentação, redução dos episódios de choro durante a noite; por conseqüência, os pais conseguem dormir mais e melhor.
- Pode ser uma ótima alternativa para pais que passam muito tempo fora, pois com a cama compartilhada, têm mais tempo com os filhos, conhecendo-os melhor e curtindo-os.
- Se o casal está confortável com a presença da criança em sua cama, naturalmente busca outras maneiras de vivenciar sua intimidade. Enquanto a criança dorme no quarto, todos os outros ambientes da casa estão disponíveis para serem explorados. Pode ser uma boa oportunidade para sair da rotina.
- A menos que os pais tenham ingerido qualquer tipo de drogas (remédios para dormir ou qualquer outro que altere o sono, bebidas alcoólicas e/ou outras substâncias), as chances de sufocar o bebê enquanto dorme são quase inexistentes. Mesmo os estudos científicos sobre o assunto, são muito vagos e tendenciosos, influenciados por questões morais, econômicas ou religiosas.
- Para um maior conforto de todos, a família pode optar por uma cama mais larga (como a king size) ou mesmo colocar os colchões no chão, ou sobre um tablado. Em muitas famílias, essa experiência é positiva.
- Aos poucos e naturalmente, a criança começa a sentir vontade de dormir na própria cama, sabendo que tem a liberdade de, eventualmente, voltar à cama dos pais. Essa necessidade de dormir junto é própria dos mamíferos, e nos acompanha durante toda a vida. Não observar essa necessidade, é negligenciar a própria natureza do ser humano.
- Se, por algum motivo, um dos parceiros ou o casal não se sentir mais confortável com a cama compartilhada, recomenda-se o processo gradual de transferência da criança para o seu quarto, ou para outra cama no mesmo quarto. Há muitas técnicas para fazer essa transição de forma amorosa e paciente.
Poderia citar inúmeras razões, mas para minha família, essas foram as mais importantes. Acima de tudo, o que importa é que nós fizemos uma escolha consciente, considerando nosso bem-estar, o tipo de relação que estamos construindo com nosso filho e os valores que acreditamos e procuramos colocar em prática. Nossas expectativas foram reavaliadas, os pré-conceitos caíram por terra e encontramos um caminho que deixa nossos corações mais alegres!

Nicole Passos

19/08/2009

O que é a motricidade livre?

*Café colonial com o bebê, realizado no dia 19/08/2009. Créditos: Simone Maurina.



Muito cedo, Emmi Pikler pressentiu que o recém nascido, para adquirir, manter, ou abandonar diferentes posições do corpo, mudar de postura ou se locomover livremente, ou ainda para aprender a se levantar e andar, não tem nenhuma necessidade de qualquer intervenção de um adulto. A criança passiva se torna uma pessoa ativa independentemente da ajuda de um adulto. A pesquisadora Emmi Pikler até duvida que esta ajuda possa acelerar o desenvolvimento do bebê.
______ A experiência de Emmi Pikler
Suas idéias se fundamentam não apenas em suas experiências profissionais, mas também sobre as idéias de seu marido que era « pedagogo progressista ». Com o nascimento de seu primeiro filho, no inicio dos anos 30, ela decide não deixar de acompanhar o seu desenvolvimento, e respeitar o seu ritmo individual. Assegura assim, desde cedo, a possibilidade a seu filho de tomar iniciativas, de se movimentar livremente de brincar de acordo com a sua vontade. Como mãe, jamais coloca a criança em uma postura que ela não seja capaz de adquirir ou de manter sozinha. Ela e o marido não exigem da criança que faça movimentos diversos, e se abstém de exercer uma influência direta sobre o seu desenvolvimento motor.
Em contra partida, eles criam condições que lhes permitiam viver em serenidade e harmonia, assegurando à criança o espaço necessário para os seus movimentos livres, indo inclusive além do que conheciam na época: eles cuidam para que as roupas que o bebê usava não atrapalhem o decorrer de suas atividades; e que os brinquedos oferecidos, possam ser manipulados sem a ajuda de quem quer que seja; e que os mesmos possam lhe oferecer experiências adequadas, enfim eles cuidavam para que a criança se sinta envolvida de cuidados afetuosos de seus pais, podendo experimentar todas as atividades e conhecer o mundo por si próprio.
______ O respeito do Ritmo próprio de cada criança
Naturalmente, o que motivou Emmi Pikler de experimentar suas idéias, foi o fato de estar convencida de quão justa era sua hipótese: ela acreditava que nas circunstâncias descritas acima, a criança que segue seu ritmo próprio e faz suas próprias descobertas é capaz de aprender melhor a sentar-se, ficar de pé, caminhar, brincar, falar, refletir, etc... do que aquela criança que é forçada a atingir diferentes estágios do desenvolvimento que nós adultos julgamos corresponder a sua idade.
Tendo o desenvolvimento de seu filho correspondido, em todos os domínios, às expectativas do seu marido e as suas próprias, Emmi Pikler, de retorno à Hungria, torna-se pediatra de famílias e encoraja nesse mesmo espírito, durante vários anos, a educação de mais de 100 recém-nascidos.
______ A confiança na capacidade de desenvolvimento de seus filhos
Aconselhando os pais de forma madura e refletida e bastante detalhada, suas idéias fundadas em observações regulares e continuas, os ajuda, antes de qualquer coisa, a ter confiança na capacidade de desenvolvimento de seus filhos. Tendo em conta as necessidades da criança, eles conseguem organizar cuidadosamente um modo de vida tranqüilo e harmonioso, respeitando seu ritmo de sono e repouso, estabelecendo um regime alimentar equilibrado e simples, definido pelo apetite da criança. Eles determinam também quanto tempo a criança pode ficar ao ar livre, tanto no inverno como no verão.
______ Criar um espaço adequado para as descobertas
Eles não interferem nem em seus movimentos, nem nas brincadeiras, não forçam as crianças a fazerem exercícios, mas deixam a disposição da criança um lugar adequado para suas descobertas, mesmo em habitações pequenas. As melhores ocasiões de estarem com seus filhos, são oferecidas essencialmente, pelas refeições, trocas, banho e cuidados de higiene.
Durante o decorrer de suas atividades, os pais tomam cuidado de não apressar e de levar em conta a necessidade e as reações de seus filhos, mesmo que a participação da criança torne mais lenta as atividades rotineiras: eles podiam aproveitar para saborear o que acontecia entre eles.
______ os benefícios de uma “organização” maior da vida do adulto
Emmi Pickler constatou, em seus anos de experiência que as crianças sentiam-se naturalmente felizes, curiosas, vivas e ativas, quando tratadas dessa forma. E que seu desenvolvimento decorria harmoniosamente e também que suas relações tanto com os pais quanto com outras pessoas era muito bom. Quanto aos pais, eles também estavam contentes. Mesmo que o sistema de educação proposto pela Dra. exigisse deles uma reflexão e uma organização maior de suas vidas e de seu ambiente para de fato oferecer à criança a possibilidade de se sentir em segurança, os pais aceitavam de praticar seus conselhos e ficavam satisfeitos de seus papéis.
Eles estavam bem convencidos dos benefícios dessas idéias e constatavam que seus filhos adquiriam experiências interessantes, sem suas intervenções, no curso de suas atividades independentes: eles não achavam que para ser bons pais, eles deviam estar sempre próximos de seus filhos, nem que eles eram obrigados a fazer sempre coisas com eles.
As crianças que ficam entretidas com suas atividades independentes não exigem de seus pais uma permanência constante, ou que eles participem de suas atividades, pois não se sentem impotentes sem eles. E os pais, constatam o valor da atividade serena e independente de seus filhos sem sentirem-se culpados de estarem fazendo outra atividade de seu interesse, ficando sempre, é claro, a vista e a disposição. Eles não se sentem escravos de seus filhos e não se consideram como mais um de seus jogos. Ao contrário eles encontram prazer em observar o seu desenvolvimento, sentem-se felizes em sua companhia e na relação com eles.
Eles esperam ansiosos o momento de se encontrarem, e mesmo que a criança deseje prolongar seus momentos de brincadeira, os pais não consideram isso como agressividade ou um comportamento inapropriado.
As « crianças Pickler » crescem há algum tempo e provam, por suas vidas, seus trabalhos e como pais, o que é mais importante, que a ajuda que seus pais receberam foi muito benéfica.
Luciana Lima

20/07/2009

Comunicar-se: uma questão de vida


* Clique na imagem e visualize o programa da oficina de CNV.


Como é difícil se comunicar! Por que será que às vezes, mesmo com a melhor das intenções, não conseguimos passar a mensagem aos que dividem conosco o espaço de trabalho ou a vida familiar? Por que será que certa pessoa nos irrita tanto que se torna difícil de ouvir mais do que duas palavras da sua boca? Por que as crianças parecem não fazer nunca o que pedimos? Por que fulano não acerta nada e é tão complicado realizar alguma coisa com ele?



É... comunicar-se é difícil!

No entanto, a capacidade de transmitir nossas idéias foi sempre o que nos tornou mais humanos. Sem que o homem fosse capaz de propagar suas visões, buscar entendimento e motivar pessoas a acompanhá-lo nas suas aventuras, já há milhares de anos teríamos desaparecido, e as grandes criações do gênio humano não teriam visto o dia.

Mas será que é possível tomar uma atitude pra adquirir objetivamente esta capacidade? Será que ouvindo e falando diferente podemos ajudar as pessoas a nos entenderem de uma forma que faça bem para ambos?

Baseado na sua experiência como psicólogo e negociador internacional, Marshall Rosenberg desenvolveu um método prático de comunicação, o qual é centrado na percepção e na clara expressão das necessidades e dos sentimentos em busca de uma relação de melhor qualidade. Além de possuir uma estrutura simples, talvez a principal vantagem deste método seja que ele nos ajuda a estarmos conscientes sobre o que é vivo em nós, no momento em que comunicamos, e sobre a importância de receber com empatia a necessidade do outro, através da escuta sincera dos seus sentimentos. Estar bem, para Marshall Rosenberg, é ter suas necessidades, se não satisfeitas, pelo menos reconhecidas. Isso, por si, só já é uma grande conquista.

Mário Lima